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Lançamento do projecto Binas

Sexta-feira, dia 24 de Maio, nasce um novo projecto na Galeria Santa Clara.
As bicicletas vão invadir a esplanada e passam a estar disponíveis para alugar todos os dias das 14h às 20h.

A inauguração é às 18h. Contamos convosco!

Em Fevereiro, os Talentos - Fevereiro 2013



ATELIÊS ABERTOS na Galeria Santa Clara – OS TALENTOS

23 de Fevereiro, sábado, das 15 às 20 horas



A música e as letras de Zeca Afonso serão um dos temas em destaque no próximo sábado, das 15 às 20 horas, na Galeria Santa Clara, na segunda edição de Ateliês Abertos, com que a Galeria festeja o seu 20.º aniversário (1993-2013).
No dia em que se assinala o desaparecimento de José Afonso, a edição de Fevereiro dos Ateliês Abertos desafia todos a juntarem as palavras à música do Zeca.
Um exercício onde todos podem participar, basta conhecerem canções como Grândola Vila Morena, Os Vampiros, Venham Mais Cinco, e outras obras que marcaram uma época e se transformaram num símbolo de resistência e de luta pela liberdade.
Será a partir das 15 horas nas várias salas da Galeria.
Também a partir dessa hora começa O Palco dos Talentos e os alunos do Conservatório de Música de Coimbra vão inundar o andar superior da Galeria com música de guitarra portuguesa, dos compositores Carlos Paredes, Flávio Rodrigues e José Elyseu.
A Horta da Galeria estará aberta, das 15 às 20 horas, para acolher todos os curiosos que desejem conhecer o modo de preparar a Terra para as plantações da Primavera que se avizinha.
A batata, a sua história e os seus segredos de sementeira, estarão em destaque também neste dia.
Às 18 horas, O Palco dos Talentos muda-se para a sala da cave e será a vez do vídeo e do cinema, com a presença de João Duque, aluno da Escola Secundária Avelar Brotero, que apresentará o vídeo A Carta, que realizou com um grupo de colegas, todos da Escola Avelar Brotero, entre eles Beatriz Costa que escreveu a Carta ao primeiro-ministro, a reinvindicar atenção e respeito pelo futuro dos jovens em Portugal.
Para convidado especial, a Galeria Santa Clara escolheu o cineasta António Ferreira.
Será com eles que decorrerá a Conversa sobre modelos artísticos de intervenção social.
Destaque ainda para Esculturas Iluminadas, exposição de Eduardo Nunes.

A entrada é livre.

CONVERSAS DE CAFÉ em italiano e em inglês

CONVERSAS DE CAFÉ em italiano e em inglês

Italiano – 6.ª feira – 16H
Inglês – 5.ª feira – 18H

As conversas de café, em várias línguas, são oferecidas aos clientes da Galeria por voluntários que não cobram qualquer valor pelo seu tempo. As conversas serão semanais e durante uma hora.
A ideia é apenas conversar e não propriamente ensinar o idioma de uma forma estruturada como numa escola.
As vagas são limitadas e as inscrições deverão ser feitas para este endereço de mail: as4007028@sapo.pt indicando o nome e telefone da pessoa.

Queres ser voluntário e ensinar a tua língua? Queres aprender melhor uma língua?

Um grupo de pessoas disponibilizam-se para dar aulas de conversação, gratuitamente. Então criámos os seguintes grupos:

Português para estrangeiros - com Filipe Silva (Portugal) às 3a feiras

Inglês - com Sara Roffino (USA) às 4as feiras

Persa - com Ali Marjovi (Irão) às 5as feiras

Hindi - com Lokesh Kumar (Índia) às 5as feiras

Sempre das 21.30 às 23h

Os grupos de conversação começam na semana de 1 de Outubro.

Podem contactar o TM 965329842 ou enviar email para as4007028@sapo.pt para obter mais informações.

criação do Aquário

AQUÁRIO

Por ocasião do MÊS da TURQUIA, Junho, vamos criar o AQUÁRIO, como um espaço de expansão pessoal.

Gostamos de viajar porque o desconhecido nos atrai. Queremos saber o que há para além do que vemos.
No Aquário, apesar de não irmos fisicamente a lado nenhum, pretendemos dar uma pequena contribuição para a descoberta de coisas novas.
Gostaríamos que o espaço promovesse o interesse por novos assuntos e fosse utilizado para ler, planear viagens, fazer pequenas tertúlias.
Tentaremos disponibilizar informação temática para consulta (saúde, alimentação, viagens, astrologia, etc).
Se quiserem colaborar contactem-nos através do mail: as4007028@sapo.pt.

AULAS DE PORTUGUÊS / CONVERSAÇÃO - PARA ESTRANGEIROS

AULAS DE PORTUGUÊS / CONVERSAÇÃO - PARA ESTRANGEIROS

A partir de JANEIRO – 2009

ÁS 3.ªs FEIRAS – 15 HORAS

GRATUITAS

INSCRIÇÕES – http://galeriasantaclara.blogspot.com

13 Dezembro 2008

“Ah, como eu desejo, pela madrugada,
Tomar nos meus braços
O corpo nu do meu cavaleiro,
Em êxtase, o seu rosto entre os meus seios

Formoso amigo, gentil e carinhoso
Quando poderei eu possuir-te
Deitar-me ao teu lado por uma hora
E cobrir-te de beijos apaixonados?

Sabes que daria quase tudo,
Para te ver no lugar do meu esposo;
Mas só se ouvir o teu juramento
De que farás tudo aquilo que eu quiser.”


escrito no século XII por Beatriz de Diaz, (sec XII) uma nobre senhora da Provença, ao seu cavaleiro e amante.
"O conceito de o “amor cortês” é introduzido por Leonor nas cortes da Europa.

Leonor, com uma história de vida fantástica, nasceu na corte mais culta do seu tempo. O seu avô, Guilherme IX, Duque da Aquitânia, foi um dos primeiros trovadores e poetas vernaculares. Era um homem extremamente culto, que transmitiu o gosto pela aprendizagem ao herdeiro Guilherme X que, por sua vez, deu uma educação excepcional às suas duas filhas: Leonor (futura rainha de Inglaterra e mãe de Ricardo Coração de Leão e João sem Terra) e a Petronilha que eram fluentes em cerca de 8 línguas, aprenderam matemática, astronomia e discutiam leis e filosofia a par com os doutores da Igreja.
rosaleonor.blogspot.com

Poemário (semana 4, Vencedor) Diogo Cabrita

Luís Mateus brinda-nos com pop art e nós brindámo-lo com a vitória:

MOLAS DE ROUPA, CLIPS, PUNAISES, AGRAFES E ZIPS

Falo de criações meninas
Que nos cabem nos dedos.
Falo de invenções
Fantásticas, objectos úteis,
Ou como adereços inúteis, intemporais.
Prendo a roupa,
Prendo os papeis,
Prendo as fotos no quadro.
São objectos fáceis,
Mecanismos geniais.
A vida pop faz-se de coisas assim,
Quase desnecessárias
Impondo-se subtilmente
seduzindo às cores,
permitindo trocas
compras múltiplas,
ausência de afectos.
Hoje branco, amanhã azul
Hoje posto, amanhã lixo
São criações para ter em stock
Fazendo excesso, permitindo
Usos vários
Não encomendados.
São criações magnificas por quem se não tem
Respeito.
Os clips os punaises
E os zips
São formas igualitárias.
Livres
E justas.

De Diogo Cabrita em Clips, Punaises & Zips, da A Mar Arte

Poemário (semana 4) João Veríssimo

Improviso da alma e do poeta
(Rogério Martins Simões)

Dia a dia o desamor
Quebra o sentido da vida
sofre-se em segredo
E na incerteza...
Reina a ganÂncia,
A injustiça
O sofrimento, a pobreza
E o medo!

É fácil dizer:
Temos de ser solidários!
Ser... não é fácil?
A vida é tortuosa,
Manhosa
vai tudo numa pressa.
E na pressa tudo olha
Nada se vê!

Olho! Nada vejo!
Olho! Nada sinto!
Olho! Olho! Olho!
Que vejo?

Vai tudo na pressa
À velocidade do salário
Vai tudo na pressa
À velocidade do ganho!
E o homem virou máquina,
Computador
Autómato.

Mas... o luar está igual
E o céu não mudou!

Mudou a humanidade
Que perdeu a individualidade.
Passámos a ser números,
Peças de inventário.
Desumanidade!

Dia a dia
caem os valores morais
Perfilam as estatísticas
Dos ganhos:
Ganha a produção:
Ganha-se menos!
trabalha-se mais:
Ganha-se menos!
Que importa?
Se um homem tem fome?
E se há revolta.
Que importa?
A quem importa?
Importa é o dinheiro
Ser rico,
Virar banqueiro.

Mas... a areia cintila no deserto!
E nem tudo o que brilha é oiro
- Não vedes o céu a irradiar?!

Não! A humanidade não luz:
A sociedade é egoísta,
Prolifera o desamor.
Importa é estar na "berra"
E neste egoísmo nada sobra.
Está quase a bater no fundo!

Estes tempos são difíceis
Só há tempo para o fútil,
Para a notícia brejeira,
Para a asneira
Para a cuscuvilhice.
E nesta agitação...
A alma consome
E o corpo mata.

Mas o mar permanece azul!
O melro assobia
E o vento vira furacão.

Passou o tempo...
(O tempo passa depressa)
E na pressa
Não há tempo para filhos.
Dos filhos para os avós.
Dos avós para os netos.
Dos meninos para a família!

Volta poesia!
Volta poeta...
Acredita...
Que estamos no Outono,
Mais logo... será Inverno,
Vem aí a Primavera
Tudo será verde... renascido,

E de volta ao lar,
Em redor da lareira
Quando o dia findar,
Os avós,
Os pais
E os netos
Recordarão histórias da vida,
Contadas sem segredos,
(Segredos bem guardados).
E desses segredos
Renascerão
Os gestos colectivos de amor
Repreendidos
E esconjurados
Os actos egoístas
De desamor.

E os meninos
De volta às escolas
(sem números nas camisolas)
Pintadas a lápis de cor
Vão ter recreios doirados
E mil e umas aventuras
E se treparem às árvores,
Subirão à "Torre de Babel"
E todos se entenderão
Na mesma língua.
Porque a terra vai ser paraíso
E os frutos não mais serão
proibidos...

Poemário (semana 4)

Ana com uma lição:

"Quando nada parece ajudar,
eu vou e olho um cortador de pedras...
martelando 100 vezes,
sem que uma só rachadura apareça.
No entanto,
na centésima martelada,
a pedra se abre em duas
e eu sei que não foi aquela que conseguiu,
mas todas as que vierem antes."

Poemário (semana 3, vencedor) Jean-Yves Leloup

Graça traz-nos de Deserto desertos:

No deserto
O homem jamais chega ao fim
É preciso que ande sempre
Em busca de uma fonte ou de uma sombra
Se não, morre.

O sentido
Não é jamais uma coisa
Ou um ser
E se é
É só pelo tempo de uma miragem
De uma veleidade de sentido.

O sentido
Faz o elo
Entre as coisas e os seres
E o que faz o elo
O deserto dos seres e das coisas
No-lo ensina em sua tão grande viva luz
É o vácuo

Sem este vácuo
Não haveria lugar para nada
E nada para reunir
Os seres e as coisas
Sem o vácuo: Nada

Poemas do deserto
de
Jean-Yves Leloup
em
"deserto desertos"

Poemário (semana 3) Álvaro de Campos

Filipe com a ode:

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgíllo dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinqüenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos.
Da faina transportadora-de-cargas dos navios.
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas européias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostados às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Atividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de l'Opéra que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!


Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes —
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfato
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias seções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma atual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta.)

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até o espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! —
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escadas.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer, ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje... )

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ônibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!




Álvaro de Campos

Poemário (semana 3) Jean-Yves Leloup

Graça, a nossa premiada da semana com mais um poema do deserto:

Os verdadeiros sábios
O que têm mais que nós?

Mais deserto

Ou seja, menos...
Menos barulhos
Menos mental
Menos cuidados
Menos ilusões
Menos dinheiro
Menos...

Os verdadeiros sábios
São desertos

Poemas do deserto